Dados não bastam: por que a data literacy se tornou estratégica para as empresas. Por Filipe Cotait*
Nos últimos anos, as empresas nunca investiram tanto em dados e, ainda assim, muitas continuam tomando decisões como se eles não existissem.
Disputam dados, ampliam suas infraestruturas de informação e incorporam inteligência artificial aos processos com o objetivo de tornar as decisões mais rápidas, mais precisas e mais alinhadas às transformações do mercado.
Com o amadurecimento dessa infraestrutura, porém, surgiu um paradoxo. Nunca houve tanta informação disponível e, ainda assim, muitas decisões continuam sendo tomadas com base em percepções individuais, experiências passadas ou leituras superficiais de indicadores.
O problema não é a falta de dados. É a incapacidade de transformá-los em decisões de negócio.
Para que informações analíticas se tornem úteis, é preciso interpretá-las dentro do contexto do negócio e transformá-las em insights capazes de orientar escolhas estratégicas. É justamente nesse ponto que a data literacy, ou alfabetização em dados, deixa de ser uma competência técnica restrita a especialistas e passa a ocupar um papel central na estratégia das empresas.
O desafio de transformar dados em decisões
Data literacy é, essencialmente, a capacidade de compreender, interpretar e comunicar informações de maneira significativa. Vai muito além de acompanhar dashboards ou indicadores. Envolve a compreensão de como os dados foram produzidos, quais fatores influenciam seus resultados e quais perguntas precisam ser feitas para extrair valor real das análises.
Quando bem interpretadas, essas informações ajudam a identificar oportunidades, otimizar processos e antecipar movimentos do mercado. Isso se reflete diretamente em eficiência operacional, redução de custos e maior capacidade de resposta às mudanças do ambiente competitivo.
Quando analisadas de forma superficial, podem levar a conclusões equivocadas e decisões mal direcionadas.
Esse desafio se torna ainda mais evidente em um ambiente em que o volume de dados cresce de forma exponencial. Dashboards, relatórios e métricas se multiplicam dentro das organizações, mas a capacidade de transformar essa abundância em conhecimento aplicável ao negócio nem sempre evolui no mesmo ritmo.
Por isso, a data literacy vem se consolidando como prioridade para empresas que desejam se tornar, de fato, orientadas por dados. Para extrair valor real de iniciativas de analytics e inteligência artificial, é fundamental garantir que a capacidade de interpretar informações esteja disseminada por toda a empresa — e não restrita a um pequeno grupo de especialistas.
Na prática, isso significa transformar dados em uma linguagem comum dentro das empresas. Profissionais de diferentes áreas passam a utilizar indicadores não apenas para acompanhar resultados, mas para formular hipóteses, questionar premissas e orientar decisões com base em evidências.
Como desenvolver data literacy nas organizações
Para que a data literacy se torne parte da cultura corporativa, muitas empresas têm investido em programas estruturados de desenvolvimento de competências analíticas. Mais do que adotar novas ferramentas ou ampliar o acesso a dashboards, o desafio é preparar as equipes para compreender e utilizar informações de forma consistente no dia a dia das decisões.
Isso envolve iniciativas como trilhas de capacitação voltadas à interpretação de indicadores, disseminação de boas práticas analíticas e estímulo constante ao uso de evidências na tomada de decisão. À medida que essas habilidades se disseminam entre profissionais de diferentes áreas, as organizações ampliam sua capacidade de identificar oportunidades, responder com agilidade às mudanças do mercado e extrair valor de suas iniciativas de analytics.
Esse movimento ganha ainda mais relevância diante do avanço recente da inteligência artificial. A IA amplia significativamente a capacidade de análise, mas também expõe, de forma ainda mais evidente, o gap entre gerar insights e tomar decisões com base neles.
Modelos analíticos e sistemas preditivos já conseguem identificar padrões e gerar análises em uma escala e velocidade que seriam impossíveis há poucos anos. Mesmo assim, transformar essas análises em decisões relevantes continua sendo um desafio humano.
Na prática, vemos que as organizações que conseguem avançar nesse modelo são aquelas que integram dados, tecnologia e processos de decisão de forma estruturada, conectando analytics diretamente aos objetivos do negócio.
Com a evolução da tecnologia, fica cada vez mais evidente que o diferencial competitivo não está apenas na sofisticação das plataformas ou no volume de dados disponível. Ele está na capacidade das equipes de interpretar informações, formular as perguntas certas e conectar as análises ao contexto do negócio.
No cenário atual, a vantagem competitiva já não está em ter acesso aos dados, mas em saber o que fazer com eles, no momento certo.

*Filipe Cotait é CEO da Stefanini Data & Analytics