Venda agêntica será uma realidade, mas ainda há desafios relevantes a superar, por Victor Nascimento*
Recentemente, a venda agêntica deixou de ser uma projeção conceitual e passou a ter um marco concreto. Anúncios recentes tanto da Visa quanto da Mastercard, que realizaram suas primeiras transações com uso de agentes de inteligência artificial, sinalizam de forma clara que esse modelo já começou a sair do campo experimental.
Esse movimento inaugura uma nova etapa nos meios de pagamento: a possibilidade de o consumidor delegar a um agente de IA a busca, seleção e finalização de uma compra. Mas, para que isso se torne uma realidade cotidiana, ainda há desafios importantes a serem superados.
O primeiro e mais fundamental deles é dar segurança às transações. Nesse contexto, a tokenização deixa de ser apenas uma tecnologia relevante e passa a ser um elemento central. Na venda agêntica, o próprio agente de IA se transforma em um solicitante de token. Em vez de o consumidor inserir seus dados diretamente em um checkout, ele os fornece ao agente, que solicita um token às bandeiras. Para que isso funcione de forma confiável, é necessário que cartão, agente e dispositivo estejam devidamente vinculados, criando um ecossistema seguro e rastreável.
Mas a tokenização, por si só, não será suficiente. A adição de camadas extras de autenticação, como biometria, será essencial para garantir que todas as partes envolvidas na transação estejam devidamente validadas. Mais do que proteger contra fraudes, essa etapa assegura algo ainda mais crítico: a intenção e o consentimento do consumidor. Em um ambiente onde decisões podem ser automatizadas, garantir o consentimento explícito será indispensável.
A evolução desse modelo também exigirá a definição de padrões técnicos, regras de interoperabilidade e diretrizes claras de participação para todos os envolvidos. Esse esforço será fundamental para organizar o ecossistema e permitir que emissores, adquirentes e provedores de tecnologia se integrem de forma consistente e segura à venda agêntica.
Esse movimento abre espaço para o surgimento de novos players e funções dentro da cadeia de valor. Um exemplo é a figura do Agent Enabler, responsável por viabilizar toda a integração entre agentes de IA e o ecossistema de pagamentos. Esse agente atuará na certificação, habilitação e manutenção das soluções, garantindo conformidade com normas de segurança, compliance e interoperabilidade. Trata-se de uma nova camada de serviços que deve ganhar relevância à medida que o modelo evolui.
Por parte dos emissores de cartões, há um certo investimento a ser feito. Para terem a infraestrutura pronta para transações agênticas, precisam estar habilitados para operar transações com tokenização, autenticação e biometria (passkeys). Por outro lado, há uma oportunidade estratégica clara. Muitos bancos já operam seus próprios ambientes de e-commerce e aplicativos robustos. É natural imaginar que as primeiras experiências de venda agêntica aconteçam dentro desses ecossistemas, utilizando os próprios assistentes de IA das instituições financeiras.
Os desafios para o varejo digital também são significativos. Os e-commerces precisarão se adaptar para serem “interpretáveis” pelos agentes de IA. Isso envolve desde a estruturação de dados de produtos até a criação de interfaces que permitam integração direta com esses agentes. Em cenários mais avançados, veremos interações do tipo agent to agent (A2A), em que o agente do consumidor se comunica diretamente com o agente do vendedor para buscar, comparar e negociar opções. Esse nível de sofisticação exigirá investimento, padronização e tempo de maturação.
A nota positiva vem do comportamento do consumidor em relação à inteligência artificial. Estudos recentes indicam que o uso de soluções baseadas em agentes de IA deixou de ser experimental e passou a fazer parte da rotina de milhões de pessoas, com crescimento acelerado. Nos Estados Unidos, por exemplo, pesquisa que levou em conta seis meses de 2025 mostrou que mais de 60% dos adultos usaram IA de alguma forma ao longo do período, sendo que 20% deles usaram diariamente. Nesse contexto, a venda agêntica tende a encontrar um ambiente mais preparado para sua expansão, reduzindo barreiras de adoção e acelerando sua consolidação.
A venda agêntica não é mais uma hipótese distante. Ela já começou a tomar forma. Mas sua consolidação dependerá da construção coordenada de infraestrutura, regras e confiança.

*Victor Nascimento é Head de Produtos da HST Card Technology