Além do algoritmo: a maturidade emocional como chave na gestão de crises em CX, por Thiago Zanon*
O setor de experiência do cliente está vivenciando um ponto de inflexão histórico. Nos últimos anos, o debate concentrou-se quase exclusivamente no alcance da automação e da inteligência artificial. Não sem razão, falavam que as máquinas iriam redefinir o atendimento ao cliente. Hoje, com a perspectiva proporcionada pela prática, sabemos que a tecnologia não vem para substituir o fator humano, mas para elevá-lo à sua máxima expressão.
A automação demonstrou uma eficiência inquestionável ao assumir as tarefas mais transacionais e repetitivas: consultar um saldo, alterar uma senha ou verificar o status de um envio. Ao liberar os contact centers desse volume de interações rotineiras, a tecnologia abriu caminho para o verdadeiro desafio do CX moderno: a gestão de casos complexos e de alto valor. E é precisamente aqui, na resolução de situações críticas ou de alta carga emocional, que a maturidade emocional e o talento senior tornam-se fundamentais.
Quando um cliente enfrenta um problema complexo, como uma ocorrência grave de faturamento, a interrupção de um serviço essencial ou um trâmite que lhe gera frustração, ele não busca um roteiro pré-estabelecido nem respostas automatizadas. Ele busca ser ouvido, compreendido e apoiado. A empatia, a resiliência e a capacidade de negociação não são habilidades que se possam programar; elas são cultivadas com os anos e com a experiência.
Incorporar perfis senior na primeira linha de resolução não é apenas uma estratégia de recursos humanos, mas uma vantagem competitiva de negócios. O talento experiente possui uma agudeza cognitiva e uma estabilidade emocional que lhe permitem decodificar o estado de espírito do usuário, manter a calma sob pressão e tomar decisões ágeis e personalizadas. É um perfil capaz de transformar um momento de crise em uma oportunidade para fidelizar o cliente pelo resto da vida.
A chave do sucesso não reside em escolher entre automação ou humanização, mas em desenhar uma parceria perfeita entre ambas. A tecnologia atua como o motor de eficiência, o filtro que processa o grosso das interações cotidianas e fornece dados em tempo real. O talento humano senior, por sua vez, torna-se o estrategista das interações críticas, trazendo o julgamento e a sensibilidade que a IA não possui.
Um exemplo claro desse ecossistema híbrido foi observado em nossas operações de gestão para a Naturgy no Brasil. A companhia redesenhou seus processos de seleção para incorporar de forma estruturada profissionais com mais de 40 anos. Em ambientes tão massivos e críticos, demonstrou-se que a combinação de ferramentas digitais avançadas e um alto grau de maturidade emocional faz a diferença. Os resultados operacionais dessa estratégia de diversidade geracional foram contundentes: a rotatividade de pessoal (turnover) reduziu-se em mais de 5%, permitindo reter um valioso conhecimento dos processos, enquanto o índice de resolução no primeiro contato (FCR – First Contact Resolution) registrou um aumento de quase 10%. Da mesma forma, a redução do absenteísmo e o aumento da empatia em situações críticas permitiram que a nota de qualidade do serviço superasse em dois pontos percentuais a meta da companhia, atingindo excelentes 82%.
Em conclusão, o futuro da experiência do cliente não é puramente digital nem puramente analógico. A verdadeira liderança em CX pertence àquelas organizações que entendem que o valor real é gerado na interseção de uma tecnologia impecável e de uma equipe humana com a maturidade necessária para conectar-se de pessoa para pessoa.

*Thiago Zanon é CHRO da Atento