A loja do futuro será mais humana porque será mais automatizada, por Alex Marques*
Existe uma contradição interessante no varejo atual de que nunca tivemos tantas formas de comprar e, ao mesmo tempo, nunca foi tão importante tornar essa experiência de compra simples e fácil para o cliente.
O consumidor pode pesquisar pelo celular, comparar preços, comprar pelo aplicativo e receber em casa e ainda assim, continua entrando na loja física. O que mudou é a expectativa, ele não quer mais escolher entre conveniência digital e atendimento presencial, mas espera encontrar os dois no mesmo lugar.
É por isso que acredito que a discussão sobre o futuro da loja física precisa mudar, porque não se trata de digitalizar o ponto de venda apenas para parecer moderno, mas de usar a tecnologia para retirar tudo aquilo que atrapalha a compra.
Uma fila desnecessária é atrito, procurar um vendedor que não sabe responder é atrito, descobrir no caixa que o preço é diferente daquele anunciado na prateleira é atrito e precisar repetir informações que a empresa já possui também. Cada atrito é uma oportunidade perdida.
A tecnologia que o consumidor quase não percebe
É curioso, mas a melhor tecnologia no varejo é aquela que o consumidor quase não percebe, por exemplo, o self-checkout, quando funciona bem, não é visto como inovação, mas como liberdade. O cliente escolhe quando e como finalizar sua compra.
Segundo dados do Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas já fizeram pelo menos uma transação com Pix, isso equivale a cerca de 80% da população brasileira. Só em janeiro desse ano, foram mais de 7 bilhões de transações. Isso mostra que o desafio do varejo não é mais convencer o consumidor a usar pagamentos digitais, mas integrar essa preferência à experiência da loja.
O Pix automático também pode ampliar essa lógica ao facilitar pagamentos recorrentes, enquanto soluções de pagamento móvel reduzem etapas entre a decisão e a conclusão da compra. No varejo, segundos podem parecer pouco, mas quando multiplicados por centenas ou milhares de transações, representam produtividade e capacidade de atendimento.
A mesma lógica vale para a operação, em que etiquetas eletrônicas podem atualizar preços sem depender de processos manuais; inteligência artificial pode apoiar a previsão de demanda, identificar padrões de consumo e ajudar equipes a tomar decisões melhores; e sistemas integrados permitem que o vendedor tenha acesso a informações de estoque, histórico e disponibilidade sem precisar abandonar o cliente para procurar respostas.
Mais automação, mais espaço para as pessoas
A loja do futuro será mais humana justamente porque será mais automatizada. Esse é o ponto mais contraintuitivo dessa transformação: quando falamos em automação, é comum imaginar uma loja com menos pessoas, mas eu penso o contrário, porque quanto mais a tecnologia assume as tarefas repetitivas, mais tempo as pessoas têm para se dedicar ao que realmente importa, que é o cliente.
Se o caixa é automatizado, o funcionário pode ajudar um cliente a encontrar um produto, se o estoque está integrado, o vendedor não precisa perder minutos procurando uma informação e se a IA antecipa uma ruptura, a equipe pode agir antes que o consumidor perceba o problema. A tecnologia, nesse cenário, não substitui as pessoas, mas cria espaço para que elas façam a diferença.
A pesquisa recente “Perspectivas para a indústria de Varejo 2026”, da Deloitte, companhia de serviços empresariais, que ouviu 330 executivos globais do varejo, reforça essa mudança ao apontar a IA como uma das forças centrais da transformação do setor, justamente no movimento da experimentação para aplicações mais concretas na operação.
É aí que a loja física ganha uma nova função, deixando de ser apenas o lugar onde a compra acontece e passando a ser um espaço em que tecnologia, dados e pessoas trabalham juntos.
O consumidor não entra em uma loja para conhecer a tecnologia utilizada pelo varejista, mas para comprar algo, resolver um problema ou ter uma boa experiência. Se a tecnologia fizer o seu trabalho direito, ele talvez nem perceba que ela estava ali.
E na minha visão, esse é um dos sinais mais claros de que uma loja realmente se tornou inteligente, quando a tecnologia deixa de ser protagonista e passa a simplesmente fazer a experiência fluir melhor.

*Alex Marques é diretor comercial da Data System