IA ainda não move o ponteiro do lucro. O que há por trás desse desafio?Por Júlio César Freitas*
O entusiasmo em torno da inteligência artificial existe, claro. Basta pesquisar “investimento + IA” no seu buscador favorito e os resultados trazem cifras na casa dos bilhões. No entanto, longe das manchetes e das provas de conceito (POCs) de laboratório, a realidade é mais sombria: a maioria das organizações está presa em um abismo entre a promessa tecnológica e a entrega de valor real. Sim, estamos falando de lucro! Estudo recente do MIT Sloan, por exemplo, revelou que 95% das empresas falham em acelerar sua receita com IA. Então, como ajustar a bússola?
Foco no repetitivo – O primeiro passo para que o capital investido retorne como lucro real é abandonar a intuição enganosa de começar pelo caso mais impressionante e focar no mais repetitivo. Não caia na armadilha de tentar impressionar a governança com grandes feitos isolados. Os melhores casos – o que chamamos de agentics ou agentes de IA – envolvem ações que ocorrem diariamente, seguem um padrão lógico e possuem impacto mensurável. É a automação da rotina que escala, não o projeto de prateleira.
Tecnologia não substitui a organização – Também é um erro estratégico acreditar que a tecnologia resolve a falta de processos. A IA não mudou a necessidade de estrutura, mas passou a punir quem não a tem. Empresas sem processos claros estão apenas criando “dívidas operacionais” que se traduzem em retrabalho e baixa confiabilidade. Como dizemos: automatizar a ineficiência é apenas acelerar o erro. A tecnologia pode ser o acelerador, mas a excelência operacional é o trilho. Sem trilho, o trem descarrilha – e quanto maior a velocidade, maior o prejuízo.
Do auditor ao curador – A partir disso, ocorre uma mudança importante: o gestor deixa de ser um auditor de conformidade, preso a cliques e conferências manuais, para assumir o papel de curador de resultados. Saímos de uma lógica rígida (o “se A, faça B”) para uma operação probabilística e fluida, capaz de aprender e ajustar a execução em tempo real sob a supervisão humana. É a chamada “fluidez automatizada”.
No fim, a única métrica que importa é se a IA moveu um ponteiro que a liderança reconheça: redução de custo por transação, ganho real de produtividade ou receita recuperada. Uso não é resultado. Resultado é o que entra no balanço. Para que a IA deixe de ser uma buzzword e se torne ativo financeiro, ela precisa se integrar à operação e redefinir a execução do trabalho. Porque a IA não falha por falta de tecnologia, mas sim por falta de direção.

*Júlio César Freitas é Professor Titular da FAAP, onde coordena os cursos de Gestão Estratégica do Design e de Governança, Compliance e Gestão de Riscos