Dados e inteligência são o novo motor do varejo. Por, Wagner Silva de Oliveira*
O varejo está deixando de ser apenas um ponto de venda para se tornar um centro de análise comportamental em tempo real. Impulsionado pela convergência entre Inteligência Artificial (IA) e Internet das Coisas (IoT) — o chamado AIoT — o setor vive uma revolução baseada em dados. Cada câmera inteligente, cada sensor e cada software de visão computacional é hoje um instrumento de coleta, processamento e interpretação de informações que alimentam decisões de negócio com precisão inédita.
O uso de câmeras e sensores vai muito além da segurança: ele transforma o ponto de venda em uma central de inteligência. Mapas de calor indicam as zonas de maior fluxo, algoritmos de permanência medem o tempo diante das gôndolas e dashboards dinâmicos revelam em segundos o desempenho de campanhas e promoções. Com essas métricas, o varejista substitui o instinto por evidências — ajusta planos, reposiciona produtos estratégicos e negocia espaços de exposição com base em dados de performance, não em suposições. O resultado é um ambiente de varejo orientado por analytics, em que cada metro quadrado é mensurado em termos de conversão, engajamento e valor comercial. Por meio de algoritmos de IA, também é possível identificar o perfil de público que acessa o ponto de vendas, além de extrair metadados como expressões faciais — um verdadeiro termômetro da experiência do cliente que orienta ajustes imediatos.
Essa leitura automatizada permite ao gestor agir de forma preditiva, ajustando filas, atendimento ou layout antes que o cliente decida abandonar a compra. De acordo com a Bain & Company, soluções inteligentes baseadas em IA podem elevar a conversão em até 30%, graças à capacidade de antecipar gargalos e personalizar interações.
A integração de dados operacionais e comportamentais cria um novo padrão de produtividade. Painéis de controle em tempo real permitem acompanhar o desempenho de equipes, o impacto de promoções e até prever gargalos com antecedência. Essa inteligência aplicada reduz desperdícios, melhora a alocação de recursos e eleva a eficiência operacional — fatores que se traduzem diretamente em margem de lucro. Em mercados competitivos, o tempo de reação é o diferencial: quem enxerga antes, decide melhor.
Mais do que otimizar operações, os dados coletados no PDV se transformam em um ativo comercial. A partir de informações precisas sobre fluxo, comportamento e hotspots de consumo, o varejista consegue monetizar o espaço físico oferecendo mídia baseada em performance. Fornecedores e marcas podem investir em áreas com alto potencial de conversão comprovado por dados — um modelo de negócio que amplia a rentabilidade e fortalece parcerias com a indústria. Trata-se de uma nova economia de dados dentro do varejo: transparente, mensurável e orientada por evidências.
De acordo com o estudo “Do Excesso de Dados às Decisões Orientadas por Dados no Varejo”, da KPMG (2025), 52% dos varejistas já conseguem extrair insights acionáveis a partir dos dados de consumidores, contra 38% no levantamento anterior. O número reforça a maturidade analítica crescente do setor e mostra que a vantagem competitiva não está mais apenas no volume de dados, mas na capacidade de transformá-los em decisões rápidas e estratégicas.
A inteligência gerada no ponto de venda não se limita à operação local. Fabricantes, distribuidores e parceiros estratégicos passam a acessar indicadores de comportamento, horários de pico e preferências regionais, o que permite otimizar cadeias de suprimento e campanhas de marketing com base em dados concretos. Em tempos de margens pressionadas e consumidores voláteis, essa visão integrada é vital para sustentar competitividade e fidelização.
O novo varejo não é apenas digital — é analítico e empático. A tecnologia deixa de ser um recurso acessório e se torna o elo entre experiência e eficiência. Cabe à liderança C-level conduzir essa transformação, reconhecendo que dados e inteligência conectada são hoje os pilares de um varejo capaz de crescer com consistência, relevância e propósito.

*Wagner Silva de Oliveira é especialista de soluções da Dahua Technology Brasil