A experiência infinita do consumidor não será construída apenas com tecnologia, por Cleber Brito*
Quando falamos sobre o futuro da experiência do cliente, quase sempre a conversa começa pela tecnologia. Inteligência artificial, automação, dados, novos canais, personalização. E não há dúvida de que tudo isso está mudando a forma como as empresas se relacionam com seus clientes.
Mas existe uma questão que, na minha visão, merece mais atenção: não adianta criar uma experiência cada vez mais sofisticada se a organização não consegue sustentá-la.É aí que vejo uma das contradições do conceito de “experiência infinita”.
Queremos que o cliente tenha uma jornada contínua, independentemente do canal ou do dispositivo. Que seja reconhecido, que seus dados estejam disponíveis e que não precise repetir as mesmas informações a cada interação.
Por trás dessa experiência aparentemente simples, entretanto, existe uma estrutura bastante complexa: pessoas, processos, sistemas, infraestrutura, segurança, dados e decisões. E basta uma dessas partes não funcionar para que toda a experiência seja afetada.
Ao longo da trajetória em tecnologia e operações, uma coisa ficou bastante evidente: o cliente não enxerga a complexidade que existe dentro de uma empresa. Ele enxerga o resultado dela.
Se o sistema está indisponível, ele não quer saber qual servidor apresentou problema. Se os canais não estão integrados, pouco importa qual área é responsável pelo CRM. Se precisa repetir uma informação para três pessoas diferentes, o investimento em transformação digital perde seu significado.
A experiência que ele recebeu foi ruim. Por isso que estamos entrando em uma nova fase da transformação digital.
Durante anos, a discussão foi sobre digitalizar. Depois, conectar canais. Agora, com a evolução da inteligência artificial, temos uma capacidade muito maior de automatizar, personalizar e escalar interações.O problema é que a velocidade da tecnologia pode ser maior do que a velocidade de transformação das próprias organizações.
Tenho visto muita discussão sobre onde colocar IA, mas menos sobre qual problema realmente queremos resolver com ela.Essa diferença é importante.
Uma empresa pode implementar um agente de IA rapidamente. Mas, se o processo que está por trás do atendimento é ruim, provavelmente teremos apenas um processo ruim acontecendo mais rápido.
A tecnologia não corrige automaticamente uma decisão de negócio equivocada. Ela pode amplificá-la. Por isso, a discussão sobre inteligência artificial na experiência do cliente precisa ir além da novidade.
Precisamos falar de maturidade
Máquinas são excelentes para lidar com volume, repetição, análise de dados e situações conhecidas. Pessoas continuam sendo fundamentais quando existe ambiguidade, negociação, empatia, julgamento ou necessidade de sair do padrão.
O desafio não está em escolher entre pessoas ou tecnologia. Está em desenhar uma operação em que as duas coisas funcionem melhor juntas. E isso exige mais do que uma boa ferramenta.
Exige processos bem definidos, dados confiáveis, segurança, infraestrutura adequada e pessoas preparadas para trabalhar de uma maneira diferente. Existe ainda um paradoxo interessante: quanto mais invisível a tecnologia fica para o cliente, mais importante ela se torna para a organização.
Quando tudo funciona, ninguém pensa na infraestrutura, na integração entre sistemas ou na segurança. O cliente simplesmente consegue resolver o que precisava. Esse é um dos sinais de maturidade tecnológica: fazer uma operação extremamente complexa parecer simples para quem está na ponta. Mas isso só acontece quando tecnologia, negócio e operação trabalham de forma integrada.
Uma falha de infraestrutura pode virar uma reclamação. Uma política de segurança mal desenhada pode transformar uma jornada simples em uma experiência frustrante. Um processo mal definido pode neutralizar uma excelente solução de IA.
Da mesma forma, quando essas áreas trabalham juntas, uma jornada complexa por trás pode se tornar simples para o cliente. Isso também muda o papel da liderança.
A experiência do cliente não pertence mais exclusivamente ao atendimento, ao marketing ou à tecnologia. Ela é resultado de toda a organização.O cliente não sabe e não deveria precisar saber onde termina uma área e começa outra.
Não significa oferecer infinitas possibilidades. Significa reduzir as interrupções, o esforço e a necessidade de o cliente entender como a empresa funciona internamente. A tecnologia terá um papel enorme nessa transformação. A inteligência artificial, provavelmente, ainda maior.
Mas não acredito que as empresas que simplesmente adotarem mais tecnologia serão necessariamente aquelas que oferecerão as melhores experiências.
As melhores experiências serão construídas por organizações capazes de combinar tecnologia, pessoas e processos de forma coerente com aquilo que prometem. No final, o cliente não avalia nossa arquitetura tecnológica, nosso modelo operacional ou a quantidade de ferramentas que temos.
Ele avalia se conseguiu resolver o que precisava. A experiência pode ser infinita. Nossa capacidade de entregá-la não. E é justamente por isso que o futuro precisa começar a ser construído agora.

*Cleber Brito é Diretor de TI na Foundever