Redes de alimentação trocam dependência de marketplaces por dados próprios para acelerar crescimento sustentável
Avanço de canais diretos como o WhatsApp reflete a busca de bares e restaurantes por autonomia comercial e fortalecimento do relacionamento com o consumidor
As vendas em bares e restaurantes cresceram 3,4% em abril na comparação com março e avançaram 8,2% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o Índice Abrasel Stone. Mas por trás dos números positivos, uma realidade preocupa empresários do food service, que muitos estabelecimentos estão recebendo mais pedidos, ampliando o faturamento e, ainda assim, vendo as margens encolherem. Comissões, custos ocultos, dependência das plataformas de entrega e falhas na gestão digital ajudam a explicar por que vender mais nem sempre significa ganhar mais.

Para Rafael Franco, CEO da Alphacode, empresa especializada no desenvolvimento de aplicativos para food service, fintechs e soluções digitais, o problema está na forma como grande parte das redes estruturou sua presença digital. “As vendas cresceram, mas muitos negócios continuam operando com baixa eficiência. O gestor acompanha o faturamento aumentar, mas não percebe que parte da margem está sendo consumida por taxas, retrabalho, falhas operacionais e pouca visibilidade dos indicadores que realmente impactam o resultado financeiro”, afirma.
O debate ganhou força nos últimos meses com a intensificação da concorrência entre plataformas de entrega e as discussões sobre os impactos da concentração do setor. Segundo dados da Abrasel, os marketplaces concentram 78% dos pedidos realizados no delivery e respondem por mais da metade do faturamento desse canal, o que amplia a dependência de muitas operações.
Ao mesmo tempo, canais próprios começam a ganhar relevância. Levantamento da entidade mostra que o WhatsApp já responde por 26% do faturamento das vendas por entrega em bares e restaurantes brasileiros, movimento que reflete a busca dos empresários por mais autonomia, relacionamento direto com os consumidores e redução de custos de aquisição.
Onde os restaurantes estão perdendo dinheiro sem perceber
De acordo com o executivo, um dos principais erros dos operadores é analisar apenas o volume de pedidos. “Nem todo crescimento gera ganho financeiro. Muitas vezes o estabelecimento vende mais, mas transfere uma parcela importante da receita para intermediários. Quando não existe integração entre aplicativo próprio, plataformas de entrega, PDV, logística e meios de pagamento, surgem perdas silenciosas que comprometem o desempenho econômico da operação”, explica.
Segundo ele, o delivery deixou de ser apenas um canal de vendas e passou a exigir uma gestão muito mais sofisticada. Hoje é necessário acompanhar indicadores como retenção de clientes, frequência de compra, ticket médio, recompra e custos operacionais para entender se a estratégia realmente está gerando retorno.
Aplicativos deixam de ser canal de venda e viram ferramenta de rentabilidade
Para o CEO da Alphacode, a próxima etapa da transformação do food service será marcada pela busca por eficiência operacional. Inteligência artificial, automação, integração de sistemas, programas de fidelidade e recursos financeiros incorporados aos aplicativos passam a desempenhar papel decisivo na geração de receita.
“Os aplicativos deixaram de funcionar apenas como uma vitrine digital. Eles se tornaram plataformas de relacionamento, fidelização e monetização. Recursos como programas de benefícios, personalização da experiência do cliente, análise comportamental e serviços financeiros integrados ajudam a ampliar margens e aumentar a recorrência de compra”, afirma.
O especialista destaca que a aproximação entre food service e fintechs cria novas oportunidades para o setor. “A integração entre aplicativos de delivery, crédito digital, fintechs, meios de pagamento e soluções financeiras conectadas ao Banco Central permite reduzir custos operacionais, aumentar eficiência e criar novas fontes de receita. Essa convergência será uma das principais transformações dos próximos anos.”
Dados dos consumidores se tornam ativo estratégico
Além da redução de custos, os aplicativos próprios oferecem algo cada vez mais valioso para as redes de alimentação: acesso aos dados dos consumidores.
“Quando o pedido acontece exclusivamente dentro de uma plataforma intermediadora, parte do relacionamento fica fora do controle da marca. Já em aplicativos próprios, o negócio consegue entender hábitos de consumo, personalizar ofertas, desenvolver programas de fidelidade e aumentar a retenção de clientes. Isso gera valor de longo prazo e melhora a rentabilidade”, afirma.
Para o executivo, a diferença entre as empresas que terão crescimento sustentável e aquelas que continuarão pressionadas por margens menores estará na capacidade de usar tecnologia para aumentar a eficiência. “O delivery continuará relevante para o setor, mas o diferencial competitivo estará na gestão. Quem conseguir integrar dados, automatizar processos, reduzir desperdícios e fortalecer o relacionamento com o cliente terá mais condições de transformar crescimento em resultado financeiro consistente.”
Texto original: Carolina Lara